terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Drink para a liberdade

Domingo, dia 15 de fevereiro, estava num show de um cantor que marcou minha infância, que convidara mais dois artistas para montar um pequeno espetáculo. Ouvi muitas canções que me fizeram relembrar de um tempo em que meu ir e vir eram mais freqüentes que as resposta e as justificativas, de um tempo em que meus sonhos freqüentavam mais minha mente do que as preocupações e de um tempo (aqui, para vocês verem eu sorrio) em que o vento era mais refrescante, o sol era mais amarelo, a terra era mais receptiva, a chuva era mais bem-vinda, o caderno e os livros eram amigos recém adquiridos, a escola era a extensão de casa, a casa de minha querida vovó... Um tempo em que me importava com o mínimo, apenas em permanecer vivo, e criava ao máximo para brincar com qualquer brinquedo.

Mas... Ocorreu que durante a apresentação me lembrei de Tom Jobim e de sua paixão pelo whisky e do whisky do grande maestro me lembrei das garrafas de bolso, que os homens hoje pouco usam para se distrair onde não queriam estar. Dessas garrafas me lembrei porque queria uma delas comigo quando um dos artistas convidados pelo cantor principal fazia suas performances. E assim que percebi que a desejava me lembrei daqueles homens que nos filmes sempre carregam a suas garrafinhas no bolso e dão um trago sempre que o destino os faz engolir a seco certos presentes da vida. Pensei então nos assim chamados alcoólatras e tentei imaginar a razão de tantos tragos.

Todo mundo sabe que o mundo é lindo, mas é uma bosta e é uma bosta, mas é lindo (parafraseio aqui uma fala do cantor, que é muito espirituoso). A vida nos impõe convenções e situações que nos colocam fracos quando somos fortes, feios quando somos bonitos, incapazes quando somos produtivos, tristes quando somos felizes. A resposta do destino que nos bate a porta está para alguns quase sempre no bico de uma garrafa. Um gole áspero que molha, dissolve, e empurra para acidez estomacal a crosta presa na garganta de palavras que não saem e que não encontram no ar o veículo de sua musicalidade, uma sinfonia das angustias mais reprimidas, que leva ao ouvido atento o pedido do alento seguida da espera de uma resposta do tipo “don’t worry, because everthing will be alright”.

Longe desses heróis do cinema, vejo hoje que para muitos de nós o encontro com o saber e o desvendar das coisas tanto nos faz sentir melhores, quanto nos aproxima da decepção de ver o que há depois do muro do não saber. Assim, bebemos muitas vezes sem saber por que, embora saibamos que jamais é pelo hábito, afinal não queremos ser chamados alcoólatras. O liquido etílico parece fazer fluir nos colóquios toda a nossa insensatez ou nos faz arrematar aquilo que falta saber, o que muitas vezes, fazemos ao falar sobre aquilo que aprendemos. E é por isso que se permite a burrice ou a ignorância no papel, na escola, nas ruas, mas não na mesa em que se bebe, onde só se encontram gênios (confesso que agora me deu vontade rir).

No entanto, pior é para mim saber hoje que um balcão, uma mesa, uma garrafa são sempre para nós, em sua maioria homens, o refúgio daquilo que não pudemos fazer, o “sim” que não obtivemos, aquilo que não quisemos ser e não fomos, o escape, a válvula, a última coisa a ser feita. Um gole que substitui o exercício máximo do nosso sonho máximo de liberdade, de querer ser e estar sempre consigo mesmo e contente o suficiente com a própria existência. Um gole que completa a nossa virilidade e que coloca em outdoor nossa perfeita originalidade, que não obtivemos (é preciso ter respeito) em mesa de bar, e sim no aconchego quente da cama e do colo que nossa mãe nos deu, dos passeios de domingo a tarde que nosso pai nos suportou e nos bancos escolares, livros, jornais e da própria vida que freqüentamos. Um gole para relembrar, talvez, o que tivemos e para nos conformar com o que nos restou agora, num balcão em que todos parecem iguais.

Balcão ou mesas que nem todos preferem, tamanha é a tristeza tamanha é alegria. Alguns outros ali gostam de ficar. Cada um a seu modo, na liberdade que resta a todos nós. Mas me parece que nos balcões e mesas da nossa existência, cumpre-nos como seres humanos sorrir mais para a vida e beber de bem com ela, sabendo assim que bebemos porque estamos celebrando um tempo que ganhamos aqui neste mundo e, quem sabe, desfrutemos um pouco de prazer. Um brinde de esperança para um dia efetivo de liberdade.

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