Sempre me senti mais perto mim quando me mudei de um lugar para outro. Embora a saudade seja algo preso na memória e um bálsamo da reminiscência, a sensação de pertencer e de estar distante é mais forte na visita da casa que se deixou: o velho portão que sempre se abre num segredo, a velha chave que insiste viver no tempo enquanto alguns vieram e outros se foram, os quadros na parede, a panela que jaz sempre na mesma boca do fogão (predileções inexplicáveis), a velhice de quem nos criou numa espera resignada pelo que vem e pelo que não volta mais, o cachorro que abre o sorriso e derrete o gelo da distância, as canecas de café, o mesmo relógio cansado, o mesmo chão, a mesma noite, a mesma mesa.
Quem vai um dia volta em outro e vê nas paredes que aquele lugar está tão fora de si quanto dentro. Não há mais como pertencer nem como se esquecer. Nos olhos, a constatação de quem ficou há uma vida que floresceu e tomou forma e brilha e preenche nosso coração com uma insistência em querer partir de novo. E nos perguntamos se seremos velhos assim mais adiante.
Naquela vida inocente de primavera, o aroma das flores refresca a conversa inútil no portão. Casais que antes por ali passavam, hoje estão sentados nas varandas vendo outros que passam do mesmo jeito. As estrelas testemunham uma fuga íntima de uma aventura que pode ser obtida tão perto dali, numa estrada. A paz que finalmente vence a angústia em ficar e promete no doce sono que vem o preencher dos olhos que a velocidade garante.
Aos poucos a vida que deixamos se mistura à recente. Porém, o fruir de sensações se encerra depois que olhamos os velhos rostos, ouvimos as antigas vozes e tocamos a carne que envelhece com o tempo. Abrimos um sorriso sim, mas já é hora.
De volta à estrada e à realidade, sonhamos com nossa conquista que fez de nós uma extensão do que éramos e uma diferença daqueles que lá ficaram. O caminho canta de novo e voltamos ao nosso destino, que forjamos na teimosia. Seguros na confiança da preservação física liberamos a fantasia do passado e a deixamos mergulhar na novidade do futuro que já é rotina. Talvez mais do que a própria liberdade seja a sensação de buscá-la num caminho em que não nos negamos nem nos desfazemos. Apenas uma soma do que fomos e seremos que se multiplica. De volta, chegando à porta recente, um novo abraço sempre nos espera.
