Como a muitos, acontece também a mim lembrar em uma canção um momento que passou. Alguns preferem lembrar alguém e dos momentos vividos com uma pessoa. Acho isso válido. Mas só por um tempo. Pois se eu continuo a viver com a mulher que comigo desfrutou de uma melodia e de momentos dignos do nosso segredo, penso que envelhecendo ao seu lado, uma nova música deva marcar nossa longevidade e a vida que estamos construindo juntos. Por outro lado, se por infelicidade tomamos rumos diferentes, ligar aquela canção ao que tivemos e não temos mais é perder uma chance a mais de ser feliz e uma grande oportunidade de sentir o que não queremos ou de lembrar com tristeza uma alegria ou com alívio uma tristeza.

Melhor que não seja assim. E sim que a melodia e as letras (quando há) tragam em mim reminiscências de um tempo que não corre; uma perenidade incrustada em acordes, melodia, harmonias, palavras, assonâncias e dissonâncias; um silêncio preenchido em espaços intervalares em que um pedaço de som determina ao próximo instante a adequação freqüêncial que só nosso ouvido pode aferir.

Criaturas da noite de Flávio Venturini e Luis Carlos Sá me envolve num enredo semelhante.
Durante um tempo eu voltava todas as noites da faculdade por ruas rodeadas de um mato prateado pela lua. E como não podia deixar de ser, percorria o caminho de casa pensando em esquadrinhar os versos dessa e de outras canções (ou poemas). Para quem não a conhece, ela conta os momentos de um solitário que vê nas varandas de casa o vagar dos insetos em busca de luz e compara sua espera àquela necessidade de se aquecer do sereno. A síntese do poema é por si só linda e música de Flávio Venturini, meio moderna meio barroca meio Beatles meio clássica só faz realçar o sabor das sílabas que se seguem formando, como na dança dos insetos nas lâmpadas, o quadro da existência inexorável em que elementos que nasceram um pro outro parecem terem sido juntados à mão (simbiose natural) e outros que não nasceram em simbiose formem uma paridade tal, que qualquer um diz que eles sempre estiveram um ao lado do outro (simbiose artificial).

Não obstante, o que mais me chama a atenção ali é a constatação de que a falta de quem amamos nos acomete justamente num processo inverso ao que acontece na natureza. Daí nosso deslocamento nosso desencontro conosco mesmo. E o que mais me entorpece é a possibilidade de alguém poder submeter sua solidão ao conhecimento do que é natural, da existência e do quotidiano das coisas; como se o seu destino (como diz a música) solitário ou em companhia, estivesse desenhado da mesma maneira em que está o dos seres e das coisas naquela simbiose natural ou artificial.

Lembrar de alguém assim é mais do que relacionar o seu jeito ou algumas palavras a uma determinada canção. É saber que o amor é um curso natural em que só a vida pode estar presente e que humanos que somos deixamos espaço somente para a arte, que, centelha do divino em nós para realizar qualquer coisa, é um meio de nos aproximarmos da capacidade divina de criar. Não há, como se vê, como desligar um desses elementos do outro. Nossa capacidade de gerar a vida se confunde com nossa incapacidade de entendê-la. Aprender um pouco mais sobre ela se assemelha a uma volta para casa, a uma jornada, a uma viagem que desejamos fazer não sozinhos.
Um colo onde sempre repousar do cansaço da noite.

Melhor que não seja assim. E sim que a melodia e as letras (quando há) tragam em mim reminiscências de um tempo que não corre; uma perenidade incrustada em acordes, melodia, harmonias, palavras, assonâncias e dissonâncias; um silêncio preenchido em espaços intervalares em que um pedaço de som determina ao próximo instante a adequação freqüêncial que só nosso ouvido pode aferir.

Criaturas da noite de Flávio Venturini e Luis Carlos Sá me envolve num enredo semelhante.
Durante um tempo eu voltava todas as noites da faculdade por ruas rodeadas de um mato prateado pela lua. E como não podia deixar de ser, percorria o caminho de casa pensando em esquadrinhar os versos dessa e de outras canções (ou poemas). Para quem não a conhece, ela conta os momentos de um solitário que vê nas varandas de casa o vagar dos insetos em busca de luz e compara sua espera àquela necessidade de se aquecer do sereno. A síntese do poema é por si só linda e música de Flávio Venturini, meio moderna meio barroca meio Beatles meio clássica só faz realçar o sabor das sílabas que se seguem formando, como na dança dos insetos nas lâmpadas, o quadro da existência inexorável em que elementos que nasceram um pro outro parecem terem sido juntados à mão (simbiose natural) e outros que não nasceram em simbiose formem uma paridade tal, que qualquer um diz que eles sempre estiveram um ao lado do outro (simbiose artificial).

Não obstante, o que mais me chama a atenção ali é a constatação de que a falta de quem amamos nos acomete justamente num processo inverso ao que acontece na natureza. Daí nosso deslocamento nosso desencontro conosco mesmo. E o que mais me entorpece é a possibilidade de alguém poder submeter sua solidão ao conhecimento do que é natural, da existência e do quotidiano das coisas; como se o seu destino (como diz a música) solitário ou em companhia, estivesse desenhado da mesma maneira em que está o dos seres e das coisas naquela simbiose natural ou artificial.
Lembrar de alguém assim é mais do que relacionar o seu jeito ou algumas palavras a uma determinada canção. É saber que o amor é um curso natural em que só a vida pode estar presente e que humanos que somos deixamos espaço somente para a arte, que, centelha do divino em nós para realizar qualquer coisa, é um meio de nos aproximarmos da capacidade divina de criar. Não há, como se vê, como desligar um desses elementos do outro. Nossa capacidade de gerar a vida se confunde com nossa incapacidade de entendê-la. Aprender um pouco mais sobre ela se assemelha a uma volta para casa, a uma jornada, a uma viagem que desejamos fazer não sozinhos.
Um colo onde sempre repousar do cansaço da noite.