terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Starry Night

Prefiro o nome dessa obra de Van Gogh em inglês à nossa nomenclatura em português “A noite estrelada”. O adjetivo preposto na língua de Shakespeare faz com que olhemos para o que é principal ali no quadro: as estrelas. Em português, o adjetivo posposto nos faz reconhecer em primeiro plano a noite e com isso a palavra “estrelada” cai no vazio comum que damos aos nossos adjetivos. Diria alguém que há também a noite chuvosa e a noite não estrelada. Porém, o efeito é o mesmo: se há uma noite chuvosa (rainy night), nos voltamos para o nosso aconchego dentro de casa (o vinho, os cobertores, um livro, a televisão, o cônjuge, a solidão), o que só a palavra chuvosa faz desejar; se há uma noite não estrelada (not starry night), há ao menos uma conversa no portão, na varanda, ou o dormir mais cedo pra esperar a chuva chegar, o que só a ausência de estrelas faz querer.


Esse tipo de relação com as palavras e nossas escolhas lexicais sempre me proporcionaram algum encanto. Certa vez, quando ainda cursava a graduação em licenciatura, uma das minhas professoras nos ensinava a não censurarmos as marcas dos registros lingüísticos das crianças, e sim instruí-las quanto ao correto estabelecido pela norma culta. E como ela exemplificasse que uma ocorrência do tipo da frase “o pássaro avoa” deveria merecer a compreensão do professor e a dedicação em ensiná-la como essa frase seria escrita no registro padrão (“o urubu voa”), eu disse, perante a classe, que aquilo que estávamos chamando de erro era na verdade um acerto, porquanto a criança sabe que entre o pássaro e o céu o que mais importa é o vôo, coisa que nós humanos não podemos fazer por conta própria. E como às vezes anexamos um prefixo a- para verbalizar certos substantivos, adjetivos ou advérbios [p.ex.: aguar de água (substantivo), aprisionar de prisão (substantivo), amarelar de amarelo (adjetivo; hoje amarelar, além de querer dizer ficar amarelo ou tornar amarelo, quer dizer também amedrontar, temer, acovardar-se) e amenizar de menos (advérbio)], também a criança anexa ao substantivo vôo este prefixo (a-); pois, não podendo voar e, além disso, maravilhando-se com tal poder (quem nunca sonhou estar voando? Quem?), a criança passa corretamente a considerar o vôo substantivo mais importante do que o voar verbo. Daí dizer o pássaro avoa. Para mim muito mais correto, inteligente, perspicaz e poético do que aquilo que estabelece a norma culta.

Algo semelhante a isso acontece quando dizemos Starry night. Pronunciada a frase, a primeira palavra (starry) carrega nossos olhos imaginários de estrelas, constelações, galáxias, de infinito, brilho, liberdade, nascimento, morte, encanto, contemplação, solidão estar acompanhado, companhia estar sozinho. Já a palavra night apenas complementa (quase sem necessidade; afinal não existe, denotativamente, um starry day) o espetáculo que se abre aos nossos olhos. Por outro lado, justiça seja feita, é por causa da noite que podemos olhar o céu e olhar nele algo mais do que aquele infinito azul do dia que mais parece uma abóbada, um teto, um finito. Quis D’US que a noite, carente de luz, trouxesse consigo outros elementos que nos permitissem ler o céu, tentar atravessar aquele infinito desviando das estrelas, sonhar que um dia, talvez, iremos para algum lugar ali voando com os anjos pelo inimaginável.

Vincent van Gogh foi um dos poucos que puderam imaginar o diálogo entre coisas, o existir, os afazeres e os homens. Creio que qualquer pessoa que tenha acesso a este blog tenha acesso também aos diversos sites e livros sobre sua vida e obra. Por isso, deter-me a falar de sua depressão ou da sua comovente consciência e luta pela sanidade (conforme canta Don McLean) seria além de comum e trivial, quase desimportante. Pois, o que ele nos legou em sua obra vai além da sua inquietante técnica artística, profusão de cores, simetria e equilíbrio, da sua impressionante concepção estética e sua influência na pintura expressionista, fauvista e abstrata. Van Gogh nos mostrou não somente nossa desatenção às pequenas belezas do quotidiano, mas também nosso embrutecimento capaz, entre outras coisas, de impedir que façamos da nossa vida um meio de expressão de liberdade e de satisfação.

Talvez fosse a solidão, gravada em duas pinturas de seu quarto em Arles (Vincent's Room, de 1888 e Van Gogh's Room at Arles, de 1889) que corroesse as veias do seu espírito. Talvez, não sei, essa mesma solidão tenha permitido que ele pudesse ver como viu uma noite de estrelas. Talvez fosse ela apenas a conseqüência da elevação de sua alma, provavelmente em busca de sublimação, ou o ambiente do seu poder de ver o significado mais importante das coisas, mesmo as mais simples.

Pensando assim, contemplamos Starry Night sem saber o que mais nos comove: a entrega do artista à arte ou sua capacidade de ir até as coisas que estão quotidianamente diante dos nossos olhos e expressá-las à perfeição, como se seus pincéis fossem a voz das estrelas, dos campos, das pessoas, do mundo.

Os traços de Starry Night trazem, por cima das casas, dos quintais e da vida noturna dentro das famílias em que as crianças jantam com os pais (a vida do dia vai se encerrando) as curvas encaracoladas das galáxias e as estrelas que dançam em ondas hierárquicas e em amarelos hierárquicos. Suas montanhas testemunham aquele espetáculo oferecendo o que Leopardi oferece à Lua: a relva para que elas brilhem no espelho que nela o orvalho faz.

Numa noite em que piscam intermitentes os vaga-lumes, em que um morcego avoa o seu vôo invisível, em que o capim e os arbustos exalam seu perfume perto de nós, em que os grilos tocam sua sinfonia de uma nota só e os sapos coaxam de um jeito sempre singular, também brilham as estrelas num manto que se estende pelo céu quando contemplamos Starry Night ou quando no chão deitamos para contemplá-las in natura.

Não sei se na vida de Vincent a fantasia se misturava à realidade. Acredito que não. Lendo as “Cartas a Theo” percebo duas coisas: ele levava sua vida num dia de cada vez (talvez num momento de cada vez) e procurava ter a consciência do percurso que seu ser fazia no caminho de sua arte.

Na turbulência de sua vida, o ato de pintar era uma espécie de portal por que passava aos universos mais distintos. Quando contemplamos não somente Starry Night, como também First Steps ou Noon: Rest From Work, e ainda os auto-retratos ou o Dr. Paul Gachet (além de todos os outros retratos em que seus traços parecem exprimir nas feições o interior das pessoas), e além desses, The vase with 12 sunflowers ou as pinturas dos campos e dos vinhedos, fica claro que fosse o que fosse sua realidade, a sua arte era o universo onde ele se encontrava. Embora precisasse de sustento e de reconhecimento, Vincent deve ter percebido em certo momento que deveria viajar sozinho por aqueles mundos, e que o bilhete não seria pago por ninguém. Dirão alguns que sua vida foi o pagamento. Eu não ousaria dizê-lo. Engraçado percebermos que o mundo quer um preço para tudo. A própria vida tem seu preço. Talvez curioso seja saber que Vincent van Gogh vendeu apenas um quadro quando era vivo (Red Vineyard at Arles). Intrigante sabermos o quanto valem hoje.



1 comentários:

Anônimo disse...

Adorei! Ao terminar tenho a impressao de ter passeado entre as estrelas, ou ainda ter pisado na grama verde sob um sol carinhoso e acolhedor! Um brinde a vida e a sensibilidade! Parabens, Chi!