segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Nessun Dorma


Em nosso mundo, às vezes, um elemento se sobrepõe ao outro, como o fogo sobre a madeira ou a folha seca, como a água sobre o fogo, como a água sobre o ar quando chove, pois mesmo que o ar esteja entre uma gota e outra, prevalece sobre a terra o flexível manto úmido da chuva.

Outras vezes, um elemento coexiste com o outro, e nesse caso uma sobreposição é apenas arbitrária, tal como os luzeiros, que se alternam a iluminar a Terra (como poderíamos supor que o Sol se sobrepõe à Lua? Pela claridade? Ou o inverso: Ela é maior só porque a Lua tem mais poesia?), como a pedra sobre a areia (É a areia mais forte por sustentar a pedra ou é esta superior àquela), como o céu e as estrelas (Devem elas ao céu o suporte para o seu brilho e sua estadia ou é ele quem enriquece às custas delas?).

Em outros momentos, os elementos convivem entre si, como a água dos mares e dos rios e a terra que os rodeia ou a relação de teimosia entre a areia da praia e a água marinha (Por mais que a segunda mexa a primeira, de manhã esta sempre está de volta ao seu lugar para que tudo comece novamente) ou os ventos e o ar (Diriam alguns que o vento é o ar em movimento. Pode ser. Mas por onde se desloca o vento?), como a relação simbiótica entre o vento e a areia do deserto (o vento a empurra pra lá e pra cá e mesmo assim ela ali permanece).

Se assim acontece na natureza, o mesmo se passa com a existência humana. Ao menos em parte. Não ousaria enquadrar todas nossas complexidades e contradições nos moldes do equilíbrio natural.

Diria que em nossa vida, entre outras coisas, o silêncio convive em substituição mútua com o som. Por vezes, é com o imperativo do silêncio que suplantamos o ruído que nos incomoda, por vezes com o som, que provoca a surpresa ou a admiração, suplantamos o silêncio que esfria (daí dizermos “quebrar o gelo”). Então como a água e o fogo, o silêncio e o som estão em nós numa relação de sobreposição mútua, como o fogo age sobre a madeira e a água sobre o fogo.

Além do poder de comunicação, diria que, em nós, a existência do outro se apresenta numa coexistência em que o individual se espelha na alteridade, relação que, vista de fora, se percebe completa e perfeita. Em contrapartida, nossa existência permite uma suplantação do alheio; geralmente da pior forma: pela escravidão, pela violência, pelo roubo. Assim, tão arbitrário é esse ato de suplantar quanto o são as relações entre os luzeiros, a pedra e a areia, o céu e as estrelas. Afinal, a coexistência humana não pressupõe uma sobreposição de uma pessoa sobre a outra. Ela é fruto de um arbítrio, que são escolhas, e nada mais.

Por outro lado, por sermos humanos, expressamos sentimentos. Dirão alguns a respeito do amor, que a indiferença é o seu oposto. Porém, ela é somente a ausência de qualquer sentimento. E se é ausência, não pode ser o oposto. Ela resulta, não poucas vezes, de uma enxurrada de sentimentos ruins curtidos por quem a sente. Daí se perguntar se é motivo de orgulho dizer que sente indiferença ou de tristeza, porquanto a indiferença é o resultado perene do que há de mais amargo no sentir. Outros diriam que o ódio é o oposto do amor. Outros, que muitos não conseguem distinguir o limite entre eles (Diga quem odeias e eu digo quem amas). Em outras palavras, não sentimos uma coisa em lugar da outra, e sim um panteão de paixões que coexistem entre si e nos fazem amar e odiar a mesma pessoa, ter a sensação de ficar e ir embora ao mesmo tempo, de querer afastar e ter alguém por perto no mesmo instante, de considerar simultaneamente feia e bonita a mesma coisa. Semelhante à relação entre o vento e ao ar, entre as águas e a terra, entre a areia e o vento, enriquecemo-nos internamente nessa ciranda de sentidos e sentimentos. É nessa riqueza que nossa humanidade se torna mais preciosa e intrigante, mais complexa e atrativa.

O fato é que, em nós, aquelas relações de equilíbrio se realçam porque, racionais, podemos tentar enxergar quase tudo através de várias perspectivas. É o que vejo, por exemplo, em Nessun Dorma, ária da ópera Turandot. Disse-se acima que alguns opõem algo ao amor, na ária acontece justamente o oposto. A mágica desse sentimento é ali de tal forma exaltada, que algo semelhante é visto, talvez, somente no poema de Dante a Beatriz, chamado (curiosamente) de Commedia, a Divina Comédia. A ária, quando bem cantata, é capaz de levar às lágrimas a mais dura das almas.

Nessun Dorma, Nessun Dorma” (“Ninguém durma! Ninguém durma!”). O príncipe estrangeiro Calaf, que havia se candidatado à mão da princesa Turandot e vencido os três enigmas que ela impusera a quem quisesse desposá-la (quem não os respondesse seria condenado à morte) diz essas palavras durante a noite em que os funcionários da princesa andam pela cidade em busca de alguém que diga qual é o misterioso nome do príncipe estrangeiro que pretendia a mão de Turandot. Obviamente, devido à ordem da princesa e aos fatos que agitam o reino (mortes, enigmas, paixões) ninguém está dormindo. Mas a busca é vã. O mistério do príncipe está fechado nele. Apenas o amor irracional aos olhos alheios, mas que faz enxergar além da frieza, do ressentimento, da vingança e da violência permite àquele que o possui entender que os afazeres, as tramas e os crimes não são capazes de superar o bem.

Enquanto seus asseclas vagueiam em busca de seu escape, a princesa contempla pela janela o tremor testemunhal das estrelas, que confessam saber o íntimo do príncipe. Seu quarto gelado é a extensão do sangue frio dos mortos que ela deu ao mundo. A morte ainda permanece ali, os crimes ainda saem de sua boca. E as estrelas, sempre auspiciosas, assistem-na rodeada de trevas e presa no seu íntimo que não consegue amar.

A luz, ao raiar do dia, confirmará a predição das estrelas. Uma estrela maior, que aquecerá os lábios gélidos de Turandot. É por isso que anseia Calaf, porquanto a noite da prova se tornará, na luz do dia, a vitória do bem sobre o crime, da vida que reside no amor sobre a morte que reside no ódio e no ressentimento.

Há quem pergunte por que choramos ao ouvir esta ária. Não obstante alguns pensem que se trata de um lugar-comum, uma espécie de decoro, de adequação de quem ouve essa peça, o que nos mareja os olhos é justamente esse embate entre o amor do príncipe e a morte (que não pára de sair dos lábios da princesa) e a certeza de que a força desse amor é suficiente para demover todo o mal, mesmo que isso signifique arriscar a própria vida. Um amor que beira o etéreo, mas que vive na realidade humana.

Turandot era belíssima, mas em seu interior o frio da morte cerrava-lhe a vida. Foi somente através do amor que Calaf pôde ver através de sua beleza e de seus crimes que uma vida ali merecia ser libertada daqueles grilhões. Um amor que traspassa a razão mais urgente, mas que vê onde a vista não alcança; e como seu amor ultrapassou a barreira do entendimento humano (e daí só com o silêncio é que se comunica com as pessoas) o príncipe passou então a dialogar com as estrelas pedindo que elas passem logo pela noite, que cumprissem o mais breve possível sua jornada. Além disso, o que nos comove é a coragem do príncipe misturada com a certeza e a clara visão do bem que lhe transbordava o coração. O que ele sentia por Turandot, fez com que ele arriscasse a própria vida justamente com aquilo que estava mais próximo dele, o seu nome. Saber que apenas o amor que ele guardava dentro de si e que já se confundia consigo mesmo, misturando-se ao seu nome, permitiu-lhe enxergar que era justamente esse o antídoto para o veneno que corria nas veias da princesa.

É o amor que humaniza, que faz alguém perder o medo de tudo, inclusive da morte. É o amor que encerra o silêncio e floresce na confissão de uma palavra. É o amor que faz coincidir os luzeiros que sempre se alternam e fazem do dia uma extensão da noite, curso de onde a vida não foge, e das estrelas uma explosão do amanhecer. É o amor que se sugere a tudo, é ele que está na primeira perspectiva. O amor é o elemento por que os outros elementos se juntam em harmonia, como a areia da praia do mar ou os ventos que percorrem o ar. É o amor que se impõe pela beleza, pela concórdia, pelo bem-estar, pela paz, pelo ato de amar.

Enquanto Calaf dizia aquelas palavras, seu sentimento se misturou à sua existência. Ele sabia que o amanhecer traria não somente sua vida, mas também a de Turandot. Quando ele confessou seu nome, confessou sua essência. Calaf, ela viu, já não era somente Calaf, era Amor.

É por isso que choramos quando ouvimos Nessun Dorma. Quando, de certo modo, entendemos o que se passa ali ou quando o cantor, sabendo interpretar a cena, consegue fazê-la viva na voz, choramos. Aquela força que reside na ficção se faz real dentro de nós porque, no fundo, é de amor que somos feitos.

3 comentários:

Adrianopr disse...

Ivan:
Parabéns pelo blog. Seu texto é um belo fluir de poesia que me fez muito bem neste momento de minha vida. É uma honra ser o primeiroa a comentá-lo. Siga em frente e vida longa ao seu 4 de Fevereiro.

(Adriano)

Mente Ansiosa disse...

Nossa Ivan fiquei sem folego.
Parabens.
Cris

marcialygiacasarin disse...

Adorei!

Beijos
Márcia