quinta-feira, 7 de outubro de 2010
TODOS POR DILMA: O círculo da direita se fecha: teocracia, censura ...
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Relendo a Divina Comédia. Novo aprendizado.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Drink para a liberdade
Domingo, dia 15 de fevereiro, estava num show de um cantor que marcou minha infância, que convidara mais dois artistas para montar um pequeno espetáculo. Ouvi muitas canções que me fizeram relembrar de um tempo em que meu ir e vir eram mais freqüentes que as resposta e as justificativas, de um tempo em que meus sonhos freqüentavam mais minha mente do que as preocupações e de um tempo (aqui, para vocês verem eu sorrio) em que o vento era mais refrescante, o sol era mais amarelo, a terra era mais receptiva, a chuva era mais bem-vinda, o caderno e os livros eram amigos recém adquiridos, a escola era a extensão de casa, a casa de minha querida vovó... Um tempo em que me importava com o mínimo, apenas em permanecer vivo, e criava ao máximo para brincar com qualquer brinquedo.
Mas... Ocorreu que durante a apresentação me lembrei de Tom Jobim e de sua paixão pelo whisky e do whisky do grande maestro me lembrei das garrafas de bolso, que os homens hoje pouco usam para se distrair onde não queriam estar. Dessas garrafas me lembrei porque queria uma delas comigo quando um dos artistas convidados pelo cantor principal fazia suas performances. E assim que percebi que a desejava me lembrei daqueles homens que nos filmes sempre carregam a suas garrafinhas no bolso e dão um trago sempre que o destino os faz engolir a seco certos presentes da vida. Pensei então nos assim chamados alcoólatras e tentei imaginar a razão de tantos tragos.
Todo mundo sabe que o mundo é lindo, mas é uma bosta e é uma bosta, mas é lindo (parafraseio aqui uma fala do cantor, que é muito espirituoso). A vida nos impõe convenções e situações que nos colocam fracos quando somos fortes, feios quando somos bonitos, incapazes quando somos produtivos, tristes quando somos felizes. A resposta do destino que nos bate a porta está para alguns quase sempre no bico de uma garrafa. Um gole áspero que molha, dissolve, e empurra para acidez estomacal a crosta presa na garganta de palavras que não saem e que não encontram no ar o veículo de sua musicalidade, uma sinfonia das angustias mais reprimidas, que leva ao ouvido atento o pedido do alento seguida da espera de uma resposta do tipo “don’t worry, because everthing will be alright”.
Longe desses heróis do cinema, vejo hoje que para muitos de nós o encontro com o saber e o desvendar das coisas tanto nos faz sentir melhores, quanto nos aproxima da decepção de ver o que há depois do muro do não saber. Assim, bebemos muitas vezes sem saber por que, embora saibamos que jamais é pelo hábito, afinal não queremos ser chamados alcoólatras. O liquido etílico parece fazer fluir nos colóquios toda a nossa insensatez ou nos faz arrematar aquilo que falta saber, o que muitas vezes, fazemos ao falar sobre aquilo que aprendemos. E é por isso que se permite a burrice ou a ignorância no papel, na escola, nas ruas, mas não na mesa em que se bebe, onde só se encontram gênios (confesso que agora me deu vontade rir).
No entanto, pior é para mim saber hoje que um balcão, uma mesa, uma garrafa são sempre para nós, em sua maioria homens, o refúgio daquilo que não pudemos fazer, o “sim” que não obtivemos, aquilo que não quisemos ser e não fomos, o escape, a válvula, a última coisa a ser feita. Um gole que substitui o exercício máximo do nosso sonho máximo de liberdade, de querer ser e estar sempre consigo mesmo e contente o suficiente com a própria existência. Um gole que completa a nossa virilidade e que coloca em outdoor nossa perfeita originalidade, que não obtivemos (é preciso ter respeito) em mesa de bar, e sim no aconchego quente da cama e do colo que nossa mãe nos deu, dos passeios de domingo a tarde que nosso pai nos suportou e nos bancos escolares, livros, jornais e da própria vida que freqüentamos. Um gole para relembrar, talvez, o que tivemos e para nos conformar com o que nos restou agora, num balcão em que todos parecem iguais.
Balcão ou mesas que nem todos preferem, tamanha é a tristeza tamanha é alegria. Alguns outros ali gostam de ficar. Cada um a seu modo, na liberdade que resta a todos nós. Mas me parece que nos balcões e mesas da nossa existência, cumpre-nos como seres humanos sorrir mais para a vida e beber de bem com ela, sabendo assim que bebemos porque estamos celebrando um tempo que ganhamos aqui neste mundo e, quem sabe, desfrutemos um pouco de prazer. Um brinde de esperança para um dia efetivo de liberdade.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
A estrada
Sempre me senti mais perto mim quando me mudei de um lugar para outro. Embora a saudade seja algo preso na memória e um bálsamo da reminiscência, a sensação de pertencer e de estar distante é mais forte na visita da casa que se deixou: o velho portão que sempre se abre num segredo, a velha chave que insiste viver no tempo enquanto alguns vieram e outros se foram, os quadros na parede, a panela que jaz sempre na mesma boca do fogão (predileções inexplicáveis), a velhice de quem nos criou numa espera resignada pelo que vem e pelo que não volta mais, o cachorro que abre o sorriso e derrete o gelo da distância, as canecas de café, o mesmo relógio cansado, o mesmo chão, a mesma noite, a mesma mesa.
Quem vai um dia volta em outro e vê nas paredes que aquele lugar está tão fora de si quanto dentro. Não há mais como pertencer nem como se esquecer. Nos olhos, a constatação de quem ficou há uma vida que floresceu e tomou forma e brilha e preenche nosso coração com uma insistência em querer partir de novo. E nos perguntamos se seremos velhos assim mais adiante.
Naquela vida inocente de primavera, o aroma das flores refresca a conversa inútil no portão. Casais que antes por ali passavam, hoje estão sentados nas varandas vendo outros que passam do mesmo jeito. As estrelas testemunham uma fuga íntima de uma aventura que pode ser obtida tão perto dali, numa estrada. A paz que finalmente vence a angústia em ficar e promete no doce sono que vem o preencher dos olhos que a velocidade garante.
Aos poucos a vida que deixamos se mistura à recente. Porém, o fruir de sensações se encerra depois que olhamos os velhos rostos, ouvimos as antigas vozes e tocamos a carne que envelhece com o tempo. Abrimos um sorriso sim, mas já é hora.
De volta à estrada e à realidade, sonhamos com nossa conquista que fez de nós uma extensão do que éramos e uma diferença daqueles que lá ficaram. O caminho canta de novo e voltamos ao nosso destino, que forjamos na teimosia. Seguros na confiança da preservação física liberamos a fantasia do passado e a deixamos mergulhar na novidade do futuro que já é rotina. Talvez mais do que a própria liberdade seja a sensação de buscá-la num caminho em que não nos negamos nem nos desfazemos. Apenas uma soma do que fomos e seremos que se multiplica. De volta, chegando à porta recente, um novo abraço sempre nos espera.
terça-feira, 29 de abril de 2008
Criaturas da noite

Melhor que não seja assim. E sim que a melodia e as letras (quando há) tragam em mim reminiscências de um tempo que não corre; uma perenidade incrustada em acordes, melodia, harmonias, palavras, assonâncias e dissonâncias; um silêncio preenchido em espaços intervalares em que um pedaço de som determina ao próximo instante a adequação freqüêncial que só nosso ouvido pode aferir.

Criaturas da noite de Flávio Venturini e Luis Carlos Sá me envolve num enredo semelhante.
Durante um tempo eu voltava todas as noites da faculdade por ruas rodeadas de um mato prateado pela lua. E como não podia deixar de ser, percorria o caminho de casa pensando em esquadrinhar os versos dessa e de outras canções (ou poemas). Para quem não a conhece, ela conta os momentos de um solitário que vê nas varandas de casa o vagar dos insetos em busca de luz e compara sua espera àquela necessidade de se aquecer do sereno. A síntese do poema é por si só linda e música de Flávio Venturini, meio moderna meio barroca meio Beatles meio clássica só faz realçar o sabor das sílabas que se seguem formando, como na dança dos insetos nas lâmpadas, o quadro da existência inexorável em que elementos que nasceram um pro outro parecem terem sido juntados à mão (simbiose natural) e outros que não nasceram em simbiose formem uma paridade tal, que qualquer um diz que eles sempre estiveram um ao lado do outro (simbiose artificial).

Não obstante, o que mais me chama a atenção ali é a constatação de que a falta de quem amamos nos acomete justamente num processo inverso ao que acontece na natureza. Daí nosso deslocamento nosso desencontro conosco mesmo. E o que mais me entorpece é a possibilidade de alguém poder submeter sua solidão ao conhecimento do que é natural, da existência e do quotidiano das coisas; como se o seu destino (como diz a música) solitário ou em companhia, estivesse desenhado da mesma maneira em que está o dos seres e das coisas naquela simbiose natural ou artificial.
Lembrar de alguém assim é mais do que relacionar o seu jeito ou algumas palavras a uma determinada canção. É saber que o amor é um curso natural em que só a vida pode estar presente e que humanos que somos deixamos espaço somente para a arte, que, centelha do divino em nós para realizar qualquer coisa, é um meio de nos aproximarmos da capacidade divina de criar. Não há, como se vê, como desligar um desses elementos do outro. Nossa capacidade de gerar a vida se confunde com nossa incapacidade de entendê-la. Aprender um pouco mais sobre ela se assemelha a uma volta para casa, a uma jornada, a uma viagem que desejamos fazer não sozinhos.
Um colo onde sempre repousar do cansaço da noite.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Starry Night
Prefiro o nome dessa obra de Van Gogh em inglês à nossa nomenclatura em português “A noite estrelada”. O adjetivo preposto na língua de Shakespeare faz com que olhemos para o que é principal ali no quadro: as estrelas. Em português, o adjetivo posposto nos faz reconhecer em primeiro plano a noite e com isso a palavra “estrelada” cai no vazio comum que damos aos nossos adjetivos. Diria alguém que há também a noite chuvosa e a noite não estrelada. Porém, o efeito é o mesmo: se há uma noite chuvosa (rainy night), nos voltamos para o nosso aconchego dentro de casa (o vinho, os cobertores, um livro, a televisão, o cônjuge, a solidão), o que só a palavra chuvosa faz desejar; se há uma noite não estrelada (not starry night), há ao menos uma conversa no portão, na varanda, ou o dormir mais cedo pra esperar a chuva chegar, o que só a ausência de estrelas faz querer.
Esse tipo de relação com as palavras e nossas escolhas lexicais sempre me proporcionaram algum encanto. Certa vez, quando ainda cursava a graduação em licenciatura, uma das minhas professoras nos ensinava a não censurarmos as marcas dos registros lingüísticos das crianças, e sim instruí-las quanto ao correto estabelecido pela norma culta. E como ela exemplificasse que uma ocorrência do tipo da frase “o pássaro avoa” deveria merecer a compreensão do professor e a dedicação em ensiná-la como essa frase seria escrita no registro padrão (“o urubu voa”), eu disse, perante a classe, que aquilo que estávamos chamando de erro era na verdade um acerto, porquanto a criança sabe que entre o pássaro e o céu o que mais importa é o vôo, coisa que nós humanos não podemos fazer por conta própria. E como às vezes anexamos um prefixo a- para verbalizar certos substantivos, adjetivos ou advérbios [p.ex.: aguar de água (substantivo), aprisionar de prisão (substantivo), amarelar de amarelo (adjetivo; hoje amarelar, além de querer dizer ficar amarelo ou tornar amarelo, quer dizer também amedrontar, temer, acovardar-se) e amenizar de menos (advérbio)], também a criança anexa ao substantivo vôo este prefixo (a-); pois, não podendo voar e, além disso, maravilhando-se com tal poder (quem nunca sonhou estar voando? Quem?), a criança passa corretamente a considerar o vôo substantivo mais importante do que o voar verbo. Daí dizer o pássaro avoa. Para mim muito mais correto, inteligente, perspicaz e poético do que aquilo que estabelece a norma culta.

Algo semelhante a isso acontece quando dizemos Starry night. Pronunciada a frase, a primeira palavra (starry) carrega nossos olhos imaginários de estrelas, constelações, galáxias, de infinito, brilho, liberdade, nascimento, morte, encanto, contemplação, solidão estar acompanhado, companhia estar sozinho. Já a palavra night apenas complementa (quase sem necessidade; afinal não existe, denotativamente, um starry day) o espetáculo que se abre aos nossos olhos. Por outro lado, justiça seja feita, é por causa da noite que podemos olhar o céu e olhar nele algo mais do que aquele infinito azul do dia que mais parece uma abóbada, um teto, um finito. Quis D’US que a noite, carente de luz, trouxesse consigo outros elementos que nos permitissem ler o céu, tentar atravessar aquele infinito desviando das estrelas, sonhar que um dia, talvez, iremos para algum lugar ali voando com os anjos pelo inimaginável.
Vincent van Gogh foi um dos poucos que puderam imaginar o diálogo entre coisas, o existir, os afazeres e os homens. Creio que qualquer pessoa que tenha acesso a este blog tenha acesso também aos diversos sites e livros sobre sua vida e obra. Por isso, deter-me a falar de sua depressão ou da sua comovente consciência e luta pela sanidade (conforme canta Don McLean) seria além de comum e trivial, quase desimportante. Pois, o que ele nos legou em sua obra vai além da sua inquietante técnica artística, profusão de cores, simetria e equilíbrio, da sua impressionante concepção estética e sua influência na pintura expressionista, fauvista e abstrata. Van Gogh nos mostrou não somente nossa desatenção às pequenas belezas do quotidiano, mas também nosso embrutecimento capaz, entre outras coisas, de impedir que façamos da nossa vida um meio de expressão de liberdade e de satisfação.
Talvez fosse a solidão, gravada em duas pinturas de seu quarto em Arles (Vincent's Room, de 1888 e Van Gogh's Room at Arles, de 1889) que corroesse as veias do seu espírito. Talvez, não sei, essa mesma solidão tenha permitido que ele pudesse ver como viu uma noite de estrelas. Talvez fosse ela apenas a conseqüência da elevação de sua alma, provavelmente em busca de sublimação, ou o ambiente do seu poder de ver o significado mais importante das coisas, mesmo as mais simples.

Pensando assim, contemplamos Starry Night sem saber o que mais nos comove: a entrega do artista à arte ou sua capacidade de ir até as coisas que estão quotidianamente diante dos nossos olhos e expressá-las à perfeição, como se seus pincéis fossem a voz das estrelas, dos campos, das pessoas, do mundo.
Os traços de Starry Night trazem, por cima das casas, dos quintais e da vida noturna dentro das famílias em que as crianças jantam com os pais (a vida do dia vai se encerrando) as curvas encaracoladas das galáxias e as estrelas que dançam em ondas hierárquicas e em amarelos hierárquicos. Suas montanhas testemunham aquele espetáculo oferecendo o que Leopardi oferece à Lua: a relva para que elas brilhem no espelho que nela o orvalho faz.
Numa noite em que piscam intermitentes os vaga-lumes, em que um morcego avoa o seu vôo invisível, em que o capim e os arbustos exalam seu perfume perto de nós, em que os grilos tocam sua sinfonia de uma nota só e os sapos coaxam de um jeito sempre singular, também brilham as estrelas num manto que se estende pelo céu quando contemplamos Starry Night ou quando no chão deitamos para contemplá-las in natura.

Não sei se na vida de Vincent a fantasia se misturava à realidade. Acredito que não. Lendo as “Cartas a Theo” percebo duas coisas: ele levava sua vida num dia de cada vez (talvez num momento de cada vez) e procurava ter a consciência do percurso que seu ser fazia no caminho de sua arte.
Na turbulência de sua vida, o ato de pintar era uma espécie de portal por que passava aos universos mais distintos. Quando contemplamos não somente Starry Night, como também First Steps ou Noon: Rest From Work, e ainda os auto-retratos ou o Dr. Paul Gachet (além de todos os outros retratos em que seus traços parecem exprimir nas feições o interior das pessoas), e além desses, The vase with 12 sunflowers ou as pinturas dos campos e dos vinhedos, fica claro que fosse o que fosse sua realidade, a sua arte era o universo onde ele se encontrava. Embora precisasse de sustento e de reconhecimento, Vincent deve ter percebido em certo momento que deveria viajar sozinho por aqueles mundos, e que o bilhete não seria pago por ninguém. Dirão alguns que sua vida foi o pagamento. Eu não ousaria dizê-lo. Engraçado percebermos que o mundo quer um preço para tudo. A própria vida tem seu preço. Talvez curioso seja saber que Vincent van Gogh vendeu apenas um quadro quando era vivo (Red Vineyard at Arles). Intrigante sabermos o quanto valem hoje.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Nessun Dorma
Em nosso mundo, às vezes, um elemento se sobrepõe ao outro, como o fogo sobre a madeira ou a folha seca, como a água sobre o fogo, como a água sobre o ar quando chove, pois mesmo que o ar esteja entre uma gota e outra, prevalece sobre a terra o flexível manto úmido da chuva.
Outras vezes, um elemento coexiste com o outro, e nesse caso uma sobreposição é apenas arbitrária, tal como os luzeiros, que se alternam a iluminar a Terra (como poderíamos supor que o Sol se sobrepõe à Lua? Pela claridade? Ou o inverso: Ela é maior só porque a Lua tem mais poesia?), como a pedra sobre a areia (É a areia mais forte por sustentar a pedra ou é esta superior àquela), como o céu e as estrelas (Devem elas ao céu o suporte para o seu brilho e sua estadia ou é ele quem enriquece às custas delas?).
Em outros momentos, os elementos convivem entre si, como a água dos mares e dos rios e a terra que os rodeia ou a relação de teimosia entre a areia da praia e a água marinha (Por mais que a segunda mexa a primeira, de manhã esta sempre está de volta ao seu lugar para que tudo comece novamente) ou os ventos e o ar (Diriam alguns que o vento é o ar em movimento. Pode ser. Mas por onde se desloca o vento?), como a relação simbiótica entre o vento e a areia do deserto (o vento a empurra pra lá e pra cá e mesmo assim ela ali permanece).
Se assim acontece na natureza, o mesmo se passa com a existência humana. Ao menos em parte. Não ousaria enquadrar todas nossas complexidades e contradições nos moldes do equilíbrio natural.
Diria que em nossa vida, entre outras coisas, o silêncio convive em substituição mútua com o som. Por vezes, é com o imperativo do silêncio que suplantamos o ruído que nos incomoda, por vezes com o som, que provoca a surpresa ou a admiração, suplantamos o silêncio que esfria (daí dizermos “quebrar o gelo”). Então como a água e o fogo, o silêncio e o som estão em nós numa relação de sobreposição mútua, como o fogo age sobre a madeira e a água sobre o fogo.
Além do poder de comunicação, diria que, em nós, a existência do outro se apresenta numa coexistência em que o individual se espelha na alteridade, relação que, vista de fora, se percebe completa e perfeita. Em contrapartida, nossa existência permite uma suplantação do alheio; geralmente da pior forma: pela escravidão, pela violência, pelo roubo. Assim, tão arbitrário é esse ato de suplantar quanto o são as relações entre os luzeiros, a pedra e a areia, o céu e as estrelas. Afinal, a coexistência humana não pressupõe uma sobreposição de uma pessoa sobre a outra. Ela é fruto de um arbítrio, que são escolhas, e nada mais.
Por outro lado, por sermos humanos, expressamos sentimentos. Dirão alguns a respeito do amor, que a indiferença é o seu oposto. Porém, ela é somente a ausência de qualquer sentimento. E se é ausência, não pode ser o oposto. Ela resulta, não poucas vezes, de uma enxurrada de sentimentos ruins curtidos por quem a sente. Daí se perguntar se é motivo de orgulho dizer que sente indiferença ou de tristeza, porquanto a indiferença é o resultado perene do que há de mais amargo no sentir. Outros diriam que o ódio é o oposto do amor. Outros, que muitos não conseguem distinguir o limite entre eles (Diga quem odeias e eu digo quem amas). Em outras palavras, não sentimos uma coisa em lugar da outra, e sim um panteão de paixões que coexistem entre si e nos fazem amar e odiar a mesma pessoa, ter a sensação de ficar e ir embora ao mesmo tempo, de querer afastar e ter alguém por perto no mesmo instante, de considerar simultaneamente feia e bonita a mesma coisa. Semelhante à relação entre o vento e ao ar, entre as águas e a terra, entre a areia e o vento, enriquecemo-nos internamente nessa ciranda de sentidos e sentimentos. É nessa riqueza que nossa humanidade se torna mais preciosa e intrigante, mais complexa e atrativa.
O fato é que, em nós, aquelas relações de equilíbrio se realçam porque, racionais, podemos tentar enxergar quase tudo através de várias perspectivas. É o que vejo, por exemplo, em Nessun Dorma, ária da ópera Turandot. Disse-se acima que alguns opõem algo ao amor, na ária acontece justamente o oposto. A mágica desse sentimento é ali de tal forma exaltada, que algo semelhante é visto, talvez, somente no poema de Dante a Beatriz, chamado (curiosamente) de Commedia, a Divina Comédia. A ária, quando bem cantata, é capaz de levar às lágrimas a mais dura das almas.
“Nessun Dorma, Nessun Dorma” (“Ninguém durma! Ninguém durma!”). O príncipe estrangeiro Calaf, que havia se candidatado à mão da princesa Turandot e vencido os três enigmas que ela impusera a quem quisesse desposá-la (quem não os respondesse seria condenado à morte) diz essas palavras durante a noite em que os funcionários da princesa andam pela cidade em busca de alguém que diga qual é o misterioso nome do príncipe estrangeiro que pretendia a mão de Turandot. Obviamente, devido à ordem da princesa e aos fatos que agitam o reino (mortes, enigmas, paixões) ninguém está dormindo. Mas a busca é vã. O mistério do príncipe está fechado nele. Apenas o amor irracional aos olhos alheios, mas que faz enxergar além da frieza, do ressentimento, da vingança e da violência permite àquele que o possui entender que os afazeres, as tramas e os crimes não são capazes de superar o bem.
Enquanto seus asseclas vagueiam em busca de seu escape, a princesa contempla pela janela o tremor testemunhal das estrelas, que confessam saber o íntimo do príncipe. Seu quarto gelado é a extensão do sangue frio dos mortos que ela deu ao mundo. A morte ainda permanece ali, os crimes ainda saem de sua boca. E as estrelas, sempre auspiciosas, assistem-na rodeada de trevas e presa no seu íntimo que não consegue amar.
A luz, ao raiar do dia, confirmará a predição das estrelas. Uma estrela maior, que aquecerá os lábios gélidos de Turandot. É por isso que anseia Calaf, porquanto a noite da prova se tornará, na luz do dia, a vitória do bem sobre o crime, da vida que reside no amor sobre a morte que reside no ódio e no ressentimento.
Há quem pergunte por que choramos ao ouvir esta ária. Não obstante alguns pensem que se trata de um lugar-comum, uma espécie de decoro, de adequação de quem ouve essa peça, o que nos mareja os olhos é justamente esse embate entre o amor do príncipe e a morte (que não pára de sair dos lábios da princesa) e a certeza de que a força desse amor é suficiente para demover todo o mal, mesmo que isso signifique arriscar a própria vida. Um amor que beira o etéreo, mas que vive na realidade humana.
Turandot era belíssima, mas em seu interior o frio da morte cerrava-lhe a vida. Foi somente através do amor que Calaf pôde ver através de sua beleza e de seus crimes que uma vida ali merecia ser libertada daqueles grilhões. Um amor que traspassa a razão mais urgente, mas que vê onde a vista não alcança; e como seu amor ultrapassou a barreira do entendimento humano (e daí só com o silêncio é que se comunica com as pessoas) o príncipe passou então a dialogar com as estrelas pedindo que elas passem logo pela noite, que cumprissem o mais breve possível sua jornada. Além disso, o que nos comove é a coragem do príncipe misturada com a certeza e a clara visão do bem que lhe transbordava o coração. O que ele sentia por Turandot, fez com que ele arriscasse a própria vida justamente com aquilo que estava mais próximo dele, o seu nome. Saber que apenas o amor que ele guardava dentro de si e que já se confundia consigo mesmo, misturando-se ao seu nome, permitiu-lhe enxergar que era justamente esse o antídoto para o veneno que corria nas veias da princesa.
É o amor que humaniza, que faz alguém perder o medo de tudo, inclusive da morte. É o amor que encerra o silêncio e floresce na confissão de uma palavra. É o amor que faz coincidir os luzeiros que sempre se alternam e fazem do dia uma extensão da noite, curso de onde a vida não foge, e das estrelas uma explosão do amanhecer. É o amor que se sugere a tudo, é ele que está na primeira perspectiva. O amor é o elemento por que os outros elementos se juntam em harmonia, como a areia da praia do mar ou os ventos que percorrem o ar. É o amor que se impõe pela beleza, pela concórdia, pelo bem-estar, pela paz, pelo ato de amar.
Enquanto Calaf dizia aquelas palavras, seu sentimento se misturou à sua existência. Ele sabia que o amanhecer traria não somente sua vida, mas também a de Turandot. Quando ele confessou seu nome, confessou sua essência. Calaf, ela viu, já não era somente Calaf, era Amor.
É por isso que choramos quando ouvimos Nessun Dorma. Quando, de certo modo, entendemos o que se passa ali ou quando o cantor, sabendo interpretar a cena, consegue fazê-la viva na voz, choramos. Aquela força que reside na ficção se faz real dentro de nós porque, no fundo, é de amor que somos feitos.



